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Estudo aponta aumento de estupros e influência de facções na Amazônia Legal

O Amazonas apresentou o maior crescimento proporcional, com alta de 41% nos registros. Já o Tocantins teve a maior redução, com queda de 9%

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Marcos Butel

Produtor cultural por meio de projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc (2024-2025). Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela UFAM-ICSEZ Parintins (2022). Cofundador da Amazon Rec Produções, produtora e portal de notícias do baixo amazonas. Trabalha com produção audiovisual, exercendo funções de roteirista, videomaker e motion designer. Estuda cinema, produção executiva e direção de fotografia pela AIC (Academia Internacional de Cinema), em São Paulo.

Dados divulgados nesta quarta-feira (19) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) revelam que os casos de estupro cresceram na Amazônia Legal em 2024. O levantamento também mostra que organizações criminosas intensificaram sua atuação na região, passando a interferir até em aspectos da vida pessoal de mulheres, independentemente de vínculos com o crime.

A Amazônia Legal é composta por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Segundo o estudo, foram registrados 13.312 casos de violência sexual neste ano, o que representa uma taxa de 90,4 ocorrências por 100 mil habitantes — 38% acima da média nacional. Em comparação com 2023, houve aumento de 4%, enquanto o Brasil como um todo teve leve queda de 0,3%.

Entre as vítimas, 77% tinham até 14 anos. O Amazonas apresentou o maior crescimento proporcional, com alta de 41% nos registros. Já o Tocantins teve a maior redução, com queda de 9%.

Variação por estado:
  • Acre: de 736 para 860 (16%)
  • Amapá: de 625 para 715 (14%)
  • Amazonas: de 951 para 1.353 (41%)
  • Maranhão: de 1.594 para 1.811 (14%)
  • Mato Grosso: de 514 para 483 (-7,5%)
  • Pará: de 5.011 para 4.815 (-4,5%)
  • Rondônia: de 1.501 para 1.491 (-1%)
  • Roraima: de 729 para 848 (13%)
  • Tocantins: de 1.014 para 934 (-9%)

O estudo faz parte da quarta edição do relatório Cartografias da Violência na Amazônia, realizado em parceria com o Instituto Clima e Sociedade, Instituto Itausa, Instituto Mãe Crioula e o Laboratório Interpretativo Laiv.

Facções e violência de gênero

A pesquisa também identificou que cerca de metade dos municípios da Amazônia Legal têm presença de facções criminosas, com destaque para o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Isabella Matosinhos, pesquisadora do FBSP, afirma que não há uma explicação única para o aumento dos estupros na região, mas aponta fatores como a vulnerabilidade em áreas de fronteira e a estrutura machista das facções. “A forma como as dinâmicas de relacionamento, a lógica que guia as masculinidades dentro das facções, são lógicas muitas vezes machistas. Então, não tem como a gente pensar que isso não vai se refletir nas práticas de violência contra a mulher. Faz sentido o crescimento das facções com o crescimento dessas taxas de estupro”, afirma.

Ela também destaca que, dentro dessas organizações, a violência sexual pode ser relativizada. “A partir do momento em que esse cara está preso, foi condenado por estupro, é uma coisa. Na prática, antes de chegar a isso, se um homem, faccionado ou não, comete uma violência sexual, será que é claro que isso é uma violência sexual?”, questiona.

Foto: Divulgação
Controle sobre mulheres

O estudo identificou três padrões de controle exercidos por facções sobre mulheres:

  • Relacionadas a membros das facções: são submetidas a regras sobre vestimenta, relacionamentos e até precisam de autorização para terminar vínculos afetivos.
  • Moradoras de territórios dominados: mesmo sem ligação direta com os grupos, podem ser punidas por se relacionarem com integrantes de facções rivais. As sanções incluem humilhações públicas e, em casos extremos, execuções.
  • Integrantes das facções: geralmente ocupam funções de apoio, sem acesso a cargos de liderança. Estão mais expostas a riscos legais e à violência interna como forma de controle.

“Não é à toa que a gente vê que mulheres faccionadas, por exemplo, geralmente estão atuando numa função mais baixa na hierarquia. Não é coincidência, é muito por causa dessa violência de gênero, mesmo, que coloca também os homens mais em condições superiores, lugares de mais prestígio”, afirma Isabella.

Outros dados da pesquisa
  • As mortes violentas na Amazônia Legal somaram 8.047 em 2024, ainda 31% acima da média nacional.
  • O Maranhão foi o único estado da região com aumento na taxa de homicídios (11%).
  • Amapá lidera o ranking de estados mais violentos.
  • Pará e Maranhão concentram os principais conflitos agrários.
  • Feminicídios são 19% mais frequentes na região em comparação com a média nacional.
  • 80% das vítimas de estupro têm até 14 anos.
  • Facções impõem regras comportamentais às mulheres, inclusive exigindo autorização para encerrar relacionamentos.
  • A apreensão de drogas na Amazônia Legal cresceu 21% em 2024.

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