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Um ano após o assassinato de Dom e Bruno, indígenas exigem investigação abrangente

Univaja pressiona por políticas de segurança no Vale do Javari

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Marcos Butel

Produtor cultural por meio de projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc (2024-2025). Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela UFAM-ICSEZ Parintins (2022). Cofundador da Amazon Rec Produções, produtora e portal de notícias do baixo amazonas. Trabalha com produção audiovisual, exercendo funções de roteirista, videomaker e motion designer. Estuda cinema, produção executiva e direção de fotografia pela AIC (Academia Internacional de Cinema), em São Paulo.

No aniversário de um ano do trágico assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, no Vale do Javari (AM), as demandas da comunidade indígena permanecem inalteradas. As principais reivindicações continuam sendo uma investigação mais minuciosa do crime e políticas públicas que garantam a segurança na região.

O Vale do Javari, segunda maior terra indígena do Brasil, localizada nos municípios de Atalaia do Norte e Guajará, no Amazonas, abriga a maior concentração de povos isolados em todo o mundo, com 64 aldeias de 26 etnias e aproximadamente 6,3 mil pessoas. No entanto, a região enfrenta problemas como pesca ilegal, extração de madeira e tráfico de drogas.

Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), afirma que a investigação deve ser ampla, não se limitando apenas aos responsáveis pelo crime, mas abrangendo também os agentes que apoiam atividades predatórias na região do Vale do Javari.

“A questão da investigação em cima do grupo que dá sustentação política àquele conjunto de atividades ilegais que funcionam na região. Um outro ponto que também é necessário que se investigue é o caminho do crime na região. É necessário que essa investigação analisando esses dois pontos aconteça justamente para que a gente garanta a segurança da região, não só para terra indígena como também para a população do entorno”.

O representante da Univaja também solicita uma maior articulação entre as políticas governamentais para garantir a segurança das populações nativas do Vale do Javari de forma contínua. Ele critica o fato de que as medidas propostas durante a transição para o atual governo ainda não foram implementadas.

“O policiamento ostensivo nos moldes que nós propusemos ao governo, ao atual governo, na comissão de transição, a prioridade que nós indicamos dentro dos 100 dias de governo também não aconteceram e isso faz com que a região fique mais vulnerável”.

A presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Joenia Wapichana, destaca a necessidade de fortalecer as estruturas e implementar uma política mais duradoura na região. Para isso, a instituição está ajustando um termo de cooperação entre organizações indígenas e conta com a colaboração de todo o governo.

“É necessário investir para que haja prioridade no fortalecimento dessas frentes, para que outros órgãos dos ministérios também compartilhem a responsabilidade de uma política de proteção mais contínua. É preciso que o próprio Estado respeite os direitos dessas terras indígenas”, ressalta Wapichana.

Na última sexta-feira (2), o Ministério dos Povos Indígenas criou um grupo de trabalho para combater a criminalidade na região, que contará com a participação de dez ministérios, Funai, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), além de representantes do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública da União, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e da própria Univaja.

Wapichana critica a gestão anterior da Funai, destacando que a fiscalização e o diálogo com os indígenas foram negligenciados, e considera que a fundação teve responsabilidade no crime. “É necessário investir para que haja prioridade para fazer o fortalecimento dessas fases, em que os outros órgãos dos ministérios possam também compartilhar a responsabilidade de uma política de proteção mais permanente. E que possa ter também respeito a esses direitos por parte do próprio Estado nas terras indígenas”, analisa.

Em relação à justiça, foi exatamente a busca de Dom e Bruno por provas contra criminosos no Vale do Javari que motivou o assassinato. O empresário Rubens Villar Pereira, suspeito de ser o mandante do crime, foi colocado em liberdade provisória em outubro do ano passado mediante pagamento de fiança no valor de R$ 15 mil.

Atualmente, três pessoas acusadas de envolvimento nas mortes estão presas, aguardando julgamento. No mês passado, a 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu colher novos depoimentos dos réus Amarildo da Costa Oliveira, Oseney da Costa Oliveira e Jefferson da Silva Lima, uma vez que seus depoimentos iniciais foram anulados. Pelo menos oito pessoas estão sob suspeita das autoridades policiais por possível participação nos homicídios e ocultação dos corpos.

Há três semanas, o ex-presidente da Funai, Marcelo Xavier, foi indiciado por omissão no caso. O ex-vice-presidente Alcir Amaral Teixeira também foi indiciado. A Polícia Federal considera que o órgão não tomou as devidas providências após ser informado sobre os riscos enfrentados pelo indigenista.

Como lembrança, amigos e parentes guardam as últimas fotos de Dom e Bruno em vida. As imagens foram recuperadas do celular de Bruno, encontrado por indígenas do Vale do Javari quatro meses após o assassinato.

Bruno Pereira e Dom Phillips foram mortos em 5 de junho do ano passado enquanto viajavam para entrevistar líderes indígenas e ribeirinhos em comunidades próximas ao Vale do Javari. O jornalista estava trabalhando em um livro sobre a Amazônia. Bruno, licenciado da Funai desde 2020, atuava como consultor técnico da Univaja e acompanhava Dom Phillips nessa missão.

Desde que conheceu a Amazônia em 1998, Dom se encantou pela região. “Acho que todo mundo que vai para a Amazônia assim fica um pouco impactado porque é uma grandiosidade de vida ali, né? O Dom se deu conta disso tanto que ele falava, né? Ele falava que via Deus na natureza”, lembra Alessandra Sampaio, viúva do jornalista britânico.

Eliesio Marubo destaca que Bruno Pereira tinha uma atuação abrangente que não se limitava ao estudo das comunidades indígenas. “O Bruno é considerado um grande nome do indigenismo brasileiro, pois sua atuação não estava calcada apenas no trabalho em si. Há toda uma preocupação não só com os povos indígenas, mas também com as comunidades do entorno das terras indígenas”, ressalta Marubo.

Para a viúva de Dom Phillips, o respeito aos povos indígenas e à Amazônia é um dos legados deixados pelo jornalista e pelo indigenista. “Acho que o Dom e o Bruno viram isso claramente. Conviviam com essas pessoas, com as riquezas que essas pessoas traziam, como aprender com a natureza. Acho que a gente perdeu a conexão com a natureza e parou de aprender com ela. O legado é a gente voltar a olhar para a natureza e entender que somos a natureza também”, conclui Alessandra.

Com informações da Agência Brasil

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