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Marcos Butel

Produtor cultural por meio de projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc (2024-2025). Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela UFAM-ICSEZ Parintins (2022). Cofundador da Amazon Rec Produções, produtora e portal de notícias do baixo amazonas. Trabalha com produção audiovisual, exercendo funções de roteirista, videomaker e motion designer. Estuda cinema, produção executiva e direção de fotografia pela AIC (Academia Internacional de Cinema), em São Paulo.

Campeão do Grupo Especial em 2025, o Bloco Rubro Negro apresentou no Carnailha 2026 um desfile de tom épico e crítico com o tema “Guerra na Mundurukânia: Mura x Munduruku”. Na avenida, a agremiação levou o público a um recorte da Amazônia colonial, encenando disputas territoriais entre dois povos guerreiros e inserindo, como eixo de denúncia, a presença do invasor branco como força que fratura aldeias e desequilibra a floresta.

Tema revisita conflito histórico e aponta o impacto do invasor branco

O enredo reconstrói a guerra entre Mura e Munduruku, destacando estratégias e modos de combate distintos: de um lado, os Mura, associados à mobilidade e ao domínio dos rios; de outro, os Munduruku, apresentados como força ofensiva e expansionista. A narrativa também situa o conflito no cenário maior da Amazônia colonial, com alianças e disputas envolvendo portugueses. No samba-enredo, essa leitura ganha síntese em versos que reforçam a crítica: o branco chega “dividindo aldeias” e “trazendo destruição”, sugerindo que, no fim, quem lucra com a colisão é o invasor.

Comissão de frente abre com embate e transforma o carnaval em denúncia

Com o título “Povos da Mundurukânia”, a comissão de frente coloca o confronto antes do samba e o território antes da avenida. Arcos, lanças e pinturas corporais constroem uma coreografia de tensão e memória, em que Mura e Munduruku se encaram como “espelhos em guerra”, marcados por sobrevivência e honra. A encenação introduz também a figura do invasor branco não como protagonista, mas como contaminação do espaço: uma presença que rompe o equilíbrio e marca a ferida aberta na floresta. A mensagem é direta: não há vencedores, há resistência — e quando a floresta marcha, o desfile assume forma de manifesto.

Ala sincronizada muda o tom: do conflito ao encontro, do confronto à cura

Depois do impacto inicial, a Ala Sincronizada faz a virada narrativa com o conceito “Quando o corpo vira festa”. O bloco troca o gesto de guerra pelo gesto de convivência, apresentando um segmento em que o ritmo vira conversa coletiva. A sincronia aparece como cumplicidade: pés batem como quem chama a terra pelo nome, braços se abrem como abraço. A floresta ganha rosto humano, e a dança surge como celebração da vida que insiste — mesmo marcada, ela segue viva no corpo de quem samba.

Rainha Luana de Souza encarna Yaraeté e simboliza “a vitória da vida”

No item rainha, Luana de Souza, 30 anos, técnica em enfermagem e presente pela terceira vez no posto, representa Yaraeté — a vitória da vida em meio à guerra. A personagem é apresentada como aquilo que o conflito não destrói: o povo que permanece e a floresta que resiste. Em vez de escolher lados, a rainha escolhe a vida, atravessando a tensão com sorriso e movimento — uma imagem de continuidade após a ferida, reforçando a ideia de que a floresta pode ser rasgada, mas não vencida.

Samba-enredo e ala tururi encerram com a floresta no peito e etnias em colisão

O samba-enredo “Quando a Floresta Marcha: Mura e Munduruku, Guardiões em Guerra” amarra o desfile com linguagem de orgulho rubro-negro, rituais, rios e a denúncia do ciclo de destruição provocado por interesses externos. O refrão e as imagens de canoa, correnteza, tambor e espírito antigo conduzem a avenida até a Ala Tururi, que reúne brincantes Muras e Mundurukus como “guardiões em guerra”, fechando a apresentação com força coletiva e tema afirmado: a história é dura, mas a resistência segue em marcha.

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