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Marcos Butel

Produtor cultural por meio de projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc (2024-2025). Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela UFAM-ICSEZ Parintins (2022). Cofundador da Amazon Rec Produções, produtora e portal de notícias do baixo amazonas. Trabalha com produção audiovisual, exercendo funções de roteirista, videomaker e motion designer. Estuda cinema, produção executiva e direção de fotografia pela AIC (Academia Internacional de Cinema), em São Paulo.

“Manas” (direção de Marianna Brennand-2024) é um filme que mexe com todo o nosso sensório-motor, sem dúvidas. Nos revolta, nos emociona, nos causa horror, nos afasta da nossa própria humanidade quando pensamos nos nossos.

É um filme que tende a nos alegrar enquanto nortistas por mostrar o outro lado da vivência ribeirinha, as águas barrentas, a canoa. O outro lado que geralmente não é mostrado. Para o paraense, é ainda mais intenso quando se destaca o delicioso açaí, a farinha, o camarão, a música, o orgulho de ser da terra, a linguagem, o sotaque.

Também é um filme que reflete a precariedade da educação. A dificuldade financeira das famílias para comprar os materiais escolares. A vontade de querer estudar, escrever era maior. Lá estavam alguns papéis costurados para escrever. Nostalgicamente, lembrei da minha infância quando estudei com alguns papéis costurados pela minha mãe. Mas não foram só os papéis que me trouxeram à memória.

Os brinquedos daquelas meninas também me fizeram lembrar de um tempo em que a minha infância foi vivida com muita felicidade. Os caroços, frutas, eram nossos brinquedos. Eram outros tempos. Bons tempos!

Embora eu tenha mencionado essas alegrias, o filme mostra, sobretudo, a infeliz realidade de muitas crianças e adolescentes dentro e fora de “seus lares”, na zona rural e zona urbana do nosso país.

E o que fica evidente? A violência. A violência de todos os lados, de todas as ordens. A violência que vem de um “pai” que deveria zelar pela segurança dos filhos. A violência que vem de uma mãe que também é violentada pela dominação e submissão do marido. Como se isso não bastasse, ela também vem da violência praticada pelo padrasto, que provavelmente gerou uma filha e que essa mesma filha foi abusada, mais tarde, pelo seu novo padrasto.

A violência religiosa que prega o discurso manipulador de “família tradicional” para esconder os traumas e violências dentro de casa.

A violência do estado que “promete” proteção e segurança aos vulneráveis, ficando às margens de seus direitos. E o ciclo de violência continua. Hoje com essa filha, amanhã com a outra.

A violência de “estrangeiros” que se aproveitam da vulnerabilidade econômica, social e da natureza infantil que ainda aflora a inocência, mas que agora acaba de ser destruída.

E a violência emocional, psicológica? Principalmente!

A sociedade não pode normalizar essas violências. Uma mãe não pode continuar dizendo para sua filha que “tem coisas que são assim” enquanto sua filha pede socorro com o olhar lacrimejando.

“As mulheres” não podem continuar dizendo que aquela menina não é a primeira e nem será a última a passar por tal violação.

A violência vem de dentro de casa e não pode se normalizar.

O “Manas” também nos mostra a resistência. E não é para ser interpretado como pacífica.

Resistência de meninas-mulheres , resistência à violência, resistência ao “sistema”, resistência por elas e por outras, resistência por outras mulheres adultas que não souberam ou não tiveram ferramentas necessárias para lutar. Resistência por muitas Marcielles!

E aqui cabe parafrasear Fanon em Os condenados da Terra: A violência só pode acabar pela própria violência.

E é o que o final do filme nos mostra: A violência pela violência.

Não preciso mais dizer que vocês precisam assistir, né!? Assistam e teçam suas críticas.

Por Bruna Lira – Doutoranda em comunicação pelo PPGCOM (UFPA)

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