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FAX transforma o Carnailha 2026 em manifesto e coloca a mulher no centro da avenida

A mensagem aparece sem rodeios, como palavra de ordem: “NÃO É NÃO!” — afirmando que a festa só é possível com respeito

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Marcos Butel

Produtor cultural por meio de projetos aprovados na Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc (2024-2025). Bacharel em Comunicação Social-Jornalismo pela UFAM-ICSEZ Parintins (2022). Cofundador da Amazon Rec Produções, produtora e portal de notícias do baixo amazonas. Trabalha com produção audiovisual, exercendo funções de roteirista, videomaker e motion designer. Estuda cinema, produção executiva e direção de fotografia pela AIC (Academia Internacional de Cinema), em São Paulo.

Atual campeã do Grupo Especial (2025), a F.A.X. — Foliões da Amazônia Xamanística apresentou no Carnailha 2026 um desfile que uniu espetáculo e posicionamento político-cultural. Com o enredo “Mulher, Força, Resistência e Coragem”, o bloco fez da avenida uma aula pública sobre a formação do Brasil e sobre as lutas femininas, trazendo referências negras, indígenas, ribeirinhas e religiosas para narrar um país construído por encontros — muitas vezes violentos — e por mulheres historicamente empurradas à invisibilidade.

Enredo costura história e luta: de Dandara às mulheres parintinenses

A proposta do desfile parte da ideia de que a mulher brasileira é fruto de uma história complexa, marcada por matrizes africanas, indígenas e europeias, e que a alegria do carnaval também pode ser linguagem de resistência. O texto do enredo cita figuras e símbolos de enfrentamento, como Dandara, além de referências a pesquisadoras e pensadoras do feminismo negro, como Lélia Gonzalez, para reforçar o tema da desigualdade e do silenciamento. Na prática, a narrativa incorpora exemplos de mulheres que sustentam a vida cotidiana — empreendedoras, chefes de família, artesãs — e também daquelas que ocupam espaços de poder, ecoando o lema popular: “Lugar de mulher é onde ela quiser.”

Comissão de frente com 10 mulheres indígenas abre o desfile como “Corpo-Território”

A comissão de frente foi formada por 10 mulheres indígenas, apresentadas como pilares do tema — força, resistência e coragem — e inspiradas em mobilizações contemporâneas como a Marcha das Mulheres Indígenas e o movimento Guerreiras da Ancestralidade. Sob o conceito de “Corpo-Território”, a performance afirmou a mulher originária como guardiã da vida e da preservação ambiental, defendendo que a luta pela terra é, essencialmente, luta pela sobrevivência coletiva.

Alas destacam gênese amazônica, mulheres de terreiro e o abadá como recado: “não é não”

Entre os quadros do desfile, a F.A.X. apresentou a Ala “A Gênese da Criação Amazônica”, inspirada na visão de povos Dessana, com Yebá-Burô como “avó do mundo” e símbolo do surgimento da luz. A narrativa também deu espaço às Mulheres de Terreiro, tratadas como liderança comunitária e guardiãs de um saber ancestral que, em Parintins, dialoga com as águas do Amazonas e com o uso sagrado de ervas da floresta — uma afirmação de fé e identidade diante do preconceito.

Na ala tururi/abadá, o bloco trouxe um dos recados mais diretos do desfile: o corpo como manifesto e a ocupação do espaço público com limites claros para a violência. A mensagem aparece sem rodeios, como palavra de ordem: “NÃO É NÃO!” — afirmando que a festa só é possível com respeito.

Carro alegórico reúne Clara Camarão, a onça e quatro destaques para representar diversidade e resistência

O carro alegórico reforçou o enredo ao colocar, no topo, um busto que simboliza a mulher como expressão máxima de força, representada por Clara Camarão, líder indígena Potiguara do século XVII associada à resistência. A presença da onça apareceu como elemento de proteção, maternidade, instinto e sabedoria ancestral, conectando mulher, natureza e território.

O conjunto ainda trouxe quatro destaques femininos para representar o encontro de raças e a diversidade étnico-racial (mulher indígena, mulher negra, mulher branca, entre outras leituras do bloco), além de uma frente dedicada às mulheres que lutaram e continuam lutando por voz — incluindo representações de mulheres parintinenses, como mulheres de terreiro, educadoras e outras lideranças locais, aproximando a história nacional do cotidiano da cidade.

Com samba que exalta a mulher guerreira e refrão que martela o tema (“FAX, FAX… é força, resistência e coragem de mulher”), a apresentação de 2026 reafirmou a identidade da F.A.X. como bloco que combina tradição do Carnailha com discurso de impacto: festa, sim — mas também memória, denúncia e afirmação.

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