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Relógio inteligente detecta ansiedade e estresse em tempo real

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Kelly Sobral

Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Tem carreira no audiovisual desde 2007 por meio de produções e atuações em curtas-metragens, o que lhe rendeu premiações em diversos festivais de cinema no Amazonas. Atualmente atua na produção de audiovisual

Tecnologia experimental desenvolvida em Centro de Pesquisa Aplicada da Unicamp já acerta mais de 80% das análises; trabalho foi apresentado durante a FAPESP Week Londres

Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP – Um relógio de pulso capaz de perceber que o usuário está ansioso antes mesmo que ele se dê conta disso. O que parece ficção científica está se tornando realidade nos laboratórios do Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar– um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) financiado pela FAPESP e pela Samsung na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Pesquisadores vinculados ao Viva Bem desenvolveram um software de inteligência artificial que identifica estados de ansiedade com mais de 80% de precisão a partir de sinais corporais captados por smartwatches.

Os resultados do trabalho foram apresentados por Anderson Rocha, professor da Unicamp e coordenador do CPA, durante a FAPESP Week Londres, realizada de 2 a 4 de junho na capital britânica.

“Desenvolvemos uma técnica inicial, que já foi publicada, e agora estamos aprimorando uma nova, que está em avaliação pela Samsung [responsável pelo hardware]”, contou Rocha à Agência FAPESP.

A tecnologia integra, entre outros indicadores, dois tipos de dados coletados continuamente pelo relógio: o eletrocardiograma – que registra a atividade elétrica do coração – e a acelerometria, que mapeia os movimentos do braço ao longo do dia. Esses sinais formam o que os pesquisadores chamam de “assinatura de dados” do usuário, um padrão individual que a IA aprende a reconhecer e monitorar.

Para ensinar os algoritmos a distinguir o estado de repouso do estado ansioso, a equipe desenvolveu protocolos clínicos que induzem o estresse de forma controlada. Em um dos testes, os participantes recebem a tarefa de calcular mentalmente, em 30 segundos, o resultado de multiplicações como 309 por 17 enquanto assistem a uma contagem regressiva no próprio relógio.

“Inevitavelmente as pessoas ficam ansiosas nessa situação”, explica Rocha. “Medimos como o corpo delas está respondendo a esse exercício e treinamos os algoritmos para identificar isso.”

A aplicação não pretende substituir médicos ou psicólogos, sublinha o pesquisador. A proposta do projeto é oferecer uma camada de monitoramento proativo: se o relógio detectar episódios ansiosos recorrentes, enviará um alerta recomendando que o usuário consulte um especialista.

“A ideia não é fazer o diagnóstico, mas ser uma ferramenta de alerta”, ressalta Rocha. A mesma lógica vale para outras condições monitoradas pelo projeto, como hipertensão, diabetes, Parkinson e risco de quedas em idosos. A IA agiria como uma sentinela silenciosa, cabendo ao usuário decidir o que fazer com a informação.

“O objetivo final é que, com os sinais captados pelos smartwatches, consigamos identificar os primeiros sintomas de diferentes condições de saúde, de modo que possamos ajudar as pessoas a terem uma melhor qualidade de vida”, afirmou Rocha.

Os resultados do projeto ainda estão em avaliação e melhoria contínua. Quando forem considerados maduros o suficiente, será solicitada autorização às autoridades competentes, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para testes com usuários reais, informou Rocha.

Na mesma palestra, Anderson Rocha (Unicamp) apresentou o projeto Horus, voltado para o que a equipe chama de “realidades sintéticas” – o universo de imagens, vídeos e textos gerados por inteligência artificial (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)

Realidades sintéticas

Na mesma palestra, Rocha apresentou o projeto Horus, voltado para o que a equipe chama de “realidades sintéticas” – o universo de imagens, vídeos e textos gerados por inteligência artificial. O laboratório já desenvolveu ferramentas para detectar deepfakes, ataques via mensagens de SMS e Whatsapp e falsificações em publicações científicas biomédicas, além de rastrear conteúdos ligados ao tráfico de crianças e à pornografia infantil.

Uma das soluções para identificação de falsificações em publicações científicas na área biomédica está em uso pelo Escritório de Integridade Científica do governo dos Estados Unidos e é disponibilizada como software de código aberto. Outra ferramenta, voltada à verificação de imagens, já é usada por agências de checagem de fatos, como Lupa, Aos Fatos e G1, e foi acionada para analisar registros visuais de conflitos recentes no Oriente Médio – casos que chegaram a ser reportados pela Reuters e pela Agence France-Presse.

Para Rocha, saúde e combate à desinformação convergem em torno de um mesmo valor: a confiança. “A IA centrada no ser humano é fundamental para fortalecer a resiliência e o bem-estar”, afirmou.

Fonte : Fapesp

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